quarta-feira, 21 de julho de 2010

O OBI



O Obi é um cinturão ou faixa que serve para manter o dogi fechado, embora o
seu significado seja bem maior que um mero cinto. Como o karate gi, o obi tem um significado
simbólico. Esse aspecto simbólico são as cores. Tradicionalmente, quando alguém
começa a praticar karate, recebe a faixa branca. Após anos de treinamento, a faixa tende a
escurecer assumindo uma coloração marrom. Se continuar praticando, ela vai se tornando
preta. A faixa preta significa que a pessoa esteve treinando karate por muitos anos.
Quando o karateca realmente se dedica ao karate, sua faixa, após a preta, começa
a ficar branca novamente, depois de muitos anos. Assim se completa o ciclo (conforme
ditado Zen, citado anteriormente). A seguir o significado das cores do Obi:
BRANCO – é a cor da inocência. Indica quem tem a mente e o espírito “vazios”,
alguém que é leigo nos aspectos espirituais do karate. Também indica
que esse praticante ainda não conhece bem as técnicas do karate;
MARROM – é a cor da terra, é a cor da solidificação. A faixa marrom indica
que o praticante já se tornou competente, que sua mente é fértil e que
seu espírito está firme.
PRETO – é a fusão de todas as cores. Ela indica quem passou por todos os desafios
e dificuldades necessárias para superar os obstáculos encontrados
nos primeiros anos de karate. Preto é a cor da noite. Ela mostra
que o primeiro “dia” que começou com a faixa branca, acabou e que
agora realmente começa a jornada de um karateca em busca do seu aprendizado
interior.

RESPIRAÇÃO E ENERGIA



A RESPIRAÇÃO


“Aprender é descobrir aquilo que você
já sabe. Fazer é demonstrar que você o
sabe”.
RICHARD BACH
3.1. INTRODUÇÃO
Diz a literatura esotérica que, o universo tem um ritmo próprio, forjado em
ciclos de opostos, yin – yang, sol – lua, homem – mulher, dia – noite, inverno – verão,
tique – taque (do coração), inspiração – expiração. Os ensinamentos também se referem a
um tempo mais lento, para alcançar equilíbrio interior.
Na prática não oculta, não esotérica, podemos confirmar que um atleta bem
preparado fisicamente tem sua pulsação cardíaca bem abaixo da população normal. Enquanto
se aceita que uma pessoa que não pratique exercícios regularmente tenha 80 batimentos
cardíacos por minuto (em repouso), um atleta em repouso, às vezes, não precisa
ter mais do que 60 para sentir-se bem, satisfazendo-se até com menos. O mesmo aparece
em relação às necessidades de respiração. O número de incursões (inspiração – expiração)
que um atleta necessita, é bem menor do que o de um executivo, por exemplo.
Quanto melhor preparado estiver, menos precisará aumentar seu ritmo respiratório, além
do que, disporá de uma reserva para quando uma ação ou adversário exigir.
O controle respiratório não é importante apenas para a prática de esportes. Ele
pode fazer parte de todo um conjunto de atitudes que denotem uma maior harmonia pessoal.
Percebam que, quando estamos irados, totalmente descontrolados, temos uma aceleração,
tanto da ventilação quanto do ritmo cardíaco, respiramos mais rápido e temos taquicardia;
quando tendemos a nos acalmar, estes ritmos também tenderão a se normalizar;
quando recebemos um susto, o mesmo acontece e tendemos à aceleração. Assim, a
perda brusca ou continuada de nosso equilíbrio mental e emocional, nos leva a alterar
nossos ritmos, tendendo para uma repetição cíclica rápida.
Numerosas práticas orientais têm suas bases estabelecidas sobre o ato de bem
respirar. Como exemplo, poderíamos citar o Yoga (talvez a mais conhecida entre nós), o
HENSHIN KARATE DOJO A RESPIRAÇÃO
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Tai Chi Chuan e o Shikun. Em várias artes marciais como, o Karate e o Aikido, a respiração
sob controle é requisito básico, mesmo para um faixa branca. Observando-se o kata
executado por um perito, se percebe a harmonia entre os movimentos do corpo e a sua
respiração.
3.2. PROCESSO DE RESPIRAÇÃO
A respiração é o mecanismo mediante o qual o nosso corpo apreende do ar o
oxigênio necessário para realizar as combustões metabólicas no funcionamento dos diversos
tecidos, servindo também para eliminar determinados produtos, especialmente gás
carbônico.
Do perfeito funcionamento e da correta mecânica deste processo vital dependerão
o maior ou menor rendimento do indivíduo, que será mais perceptível quanto maior
forem as necessidades orgânicas a que se submete o organismo. Portanto, quer na prática
desportiva quer no cotidiano é de capital importância que o indivíduo conheça e realize
corretamente todas as ações do mecanismo, permitindo-lhe conseguir um máximo rendimento.
Pode-se diferenciar, dentro do ato da respiração, uma fase inicial na qual se
introduz ar através das vias superiores até o pulmão (inspiração) e outra de saída do dito
ar uma vez utilizado (expiração). Esta ação mecânica se complementa com uma dupla
fase químico-metabólica de intercâmbio gasoso, uma ao nível do alvéolo pulmonar onde
as hematitas do sangue recebem oxigênio em troca de gás carbônico e a outra nos tecidos,
que fazem o processo inverso.
3.3. FORMAS DE RESPIRAÇÃO
Existem duas maneiras (naturais) de se colocar ar dentro dos pulmões:
Respiração torácica (barriga para dentro e peito para fora);
Respiração abdominal (uso do diafragma).
Observe uma criança pequena dormindo. Veja como sua barriquinha sobe e
desce, numa calma de fazer inveja. Essa é a respiração diafragmática ou abdominal. Agora
se lembre dessa mesma criança chorando ou assustada. Essa é a respiração torácica.
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Quando você enche o peito de ar, encolhendo a barriga, está usando apenas a
musculatura do tórax. Esse é o tipo de respiração de quem está fazendo um exercício físico
intenso ou está sob pressão. Nesse último caso, ocorre uma superficialização dos movimentos,
entrando menos ar, mas com um grande número de inspirações e expirações. O
resultado é acúmulo de ar viciado, pobre em oxigênio, além de tensão muscular. Já a respiração
diafragmática ocorre em situações de calma e, muito importante, é capaz de diminuir
a reação de alarme. O diafragma é o músculo que separa o abdômen do tórax e
pode ser controlado com um mínimo de atenção.
3.4. PRATICANDO A RESPIRAÇÃO
Num local calmo, em casa, passe a provocar a respiração diafragmática, da
seguinte maneira: deitado, coloque uma mão na barriga, logo acima do umbigo, e a outra
no peito. Inale muito lentamente, procurando fazer de sua barriga um balão expandindose.
A mão da barriga deve subir e a mão do tórax deve se mexer muito pouco. Respire
com muita calma, de maneira regular e suave, expire muito lentamente, mais ou menos
na mesma velocidade que inspirou. Deixe sair todo o ar e se possível, fique de um a dois
segundos parado antes de começar um novo ciclo.
Se pensamentos começarem a interromper sua concentração, você poderá
contar o tempo que está passando, como mil, dois mil, três mil, etc. sendo que cada um
desses números contado mentalmente equivale a aproximadamente um segundo. Outra
maneira é desenhar também na mente um círculo que se completa a cada ciclo de respiração,
imaginando metade na inspiração e metade na expiração. É possível que suas primeiras
experiências o deixem com alguma tontura. Não force o organismo, este não é um
desafio e muito menos uma competição, vá devagar e procure se adaptar aos poucos.
Quando estiver dominando a técnica você conseguirá desencadear a respiração
abdominal quando precisar. Passe a empregá-la em situações de tensão. Pode ser no
meio de uma aula (ninguém vai notar), meio minuto antes de fazer àquela prova importante,
no meio do trânsito (dentro do ônibus). Essa prática é facílima e sem querer você
não apenas irá melhorar sua concentração, mas também já começa a monitorar as situações
que o deixam mais tenso.
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A freqüência e o ritmo da respiração são regulados pela estimulação do centro
respiratório, aonde chegam mensagens por meio da distensão dos alvéolos pulmonares ou
sob a resultante do aumento de concentração de gás carbônico no sangue.
Quanto maior for o trabalho muscular, maior será a produção de gás carbônico
e maior o ritmo respiratório. A freqüência respiratória está situada em um adulto, em
condições de repouso, por volta de 15 ciclos por minuto e variará com a idade (40 no recém-
nascido, de 8 a 10 em pessoas treinadas, etc.).
O ritmo normal recebe o nome de eupneico (se acelerar torna-se taquipneico,
e se diminuir passa para bradipneico). A quantidade de ar que se mobiliza no interior dos
pulmões em respiração normal nunca é o total da sua capacidade, dado que sempre ficará
o chamado "ar residual", daí a necessidade de se procurar esvaziar e preencher os pulmões
totalmente durante os exercícios respiratórios.
3.5. RESPIRAÇÃO NA CONCENTRAÇÃO MENTAL
Tendo como base uma forma treinada de controle voluntário e consciente da
respiração, é possível conseguir um alto grau de concentração e isolamento mental. O
que, partindo de um estado de repouso físico, nos possibilita aprender a "ouvir e a ver por
dentro o nosso próprio corpo" e ao mesmo tempo em que nos familiarizamos com o seu
funcionamento.
Em grande medida, as mais avançadas formas de concentração mental aplicadas
ao treinamento desportivo empregam, em fases iniciais, diversas técnicas de respiração
abdominal combinada com auto-regulação de outros processos fisiológicos de capacitação
mental. Nas artes marciais, tais procedimentos metódicos podem ajudar a conseguir
um melhor conhecimento da nossa interioridade corporal, ou seja, conseguem-se uma
disposição maior para maximizar as capacidades mentais de concentração, relaxação, imaginação,
equilíbrio, e tantos outros.
Além disso, o adequado controle da respiração proporciona ao indivíduo um
aumento da capacidade vital, com uma melhor oxigenação celular com menos esforço,
logo um ritmo cardíaco muito menor com igualdade de esforço, com maior resistência à
fadiga e um mais rápido e melhor tempo de recuperação.
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ENERGIA

“O que se educa não é uma alma nem
um corpo... é um homem”.
MONTAIGNE
4.1. INTRODUÇÃO
No oriente fala-se de um tipo de energia que está presente em tudo à nossa
volta, ela influencia desde o mais simples ser ou coisa até os planetas. Tal força, que é
relacionada à essência do universo, envolve todas as entidades que nele existem e dá vida,
pois ela não fica estagnada em um lugar específico, mas se movimenta e como um rio
sempre é renovado. Ela possui muitos nomes:
CH’I – China;
KI – Japão;
PRANA – Índia.
4.2. ENERGIA INTERIOR
Qualquer um pode entrar numa academia e aprender a dar socos e chutes ou
pegar uma espada e dar cortes com ela, mas o difícil é a parte mental e espiritual que está
relacionada com a concentração de energia, porque na verdade o karate trabalha muito
com a parte interna e se a pessoa não estiver bem espiritualmente não conseguirá realizar
as técnicas com perfeição.
Embora o conceito de energia interior seja realmente indefinível como tudo
que rodeia a doutrina Zen, a existência universal de uma manifestação vital de energia foi
tema presente em todas as civilizações. E esta imagem talvez seja a que melhor se adapta,
podendo assim considerá-la sob a forma de "impulso vital universal".
Ante isto, os cartesianos raciocínios ocidentais, que raramente se conformam
com não definir, etiquetar ou comparar qualquer ato ou circunstância, ao confirmar a existência
do fato trataram de analisá-lo, unindo na explicação atuações físicas, psíquicas,
bioquímicas e inclusive astrais, que conformam uma complexa cadeia, após a qual pre-
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tende esclarecer essa especial "ânsia de viver", esse "impulso vital" que em circunstâncias
insólitas ou extremas aparece sem raciocínio científico válido.
O treinamento marcial tem por base o desenvolvimento interior através do exterior
(físico) e após este acontecer, o processo inverso tem início, isto é, o exterior se
desenvolve e expressa o interior. A expressão verbal da energia interior é conhecida como
Kiai.
4.2.1. KIAI
O kiai ou “grito de força” – KI: força e AI: grito – é uma energia que nasce a
partir do baixo ventre (saika tanden – aproximadamente cinco centímetros abaixo do umbigo).
Todos têm um grito de força, principalmente os grandes felinos. Geralmente, esses
animais paralisam suas presas com o seu kiai antes de atacá-las. O kiai pode ser aplicado
em três momentos:
No início de uma atividade;
Durante a realização desta tarefa;
Final de um trabalho.
Os gritos de guerra servem para aumentar, acelerar e expor a força de ação do
homem. Portanto, podem ser aplicados contra incêndios, vendavais e as fortes ondas marítimas
para criar coragem e energia para enfrentá-los.
Na luta individual, para colocar o adversário em movimento, o grito antecipa
seus golpes e, em seguida, pode se aplicar chutes e socos. Não é necessário utilizar o grito
simultaneamente com seus golpes. No decorrer da luta, ele servirá para incentivar e
colocar numa situação vantajosa, sendo forte e profundo.
Tomar precaução ao gritar, pois se o grito for usado fora de ritmo ou de tempo
ou em ocasiões impróprias poderá surgir como contra-efeito, tornando-se prejudicial.
No Japão há a prática do Kiai Do – caminho do grito da força – onde o praticante
chega a ter medo do próprio grito.
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4.3. ENERGIA EXTERIOR
Enquanto o kiai é a verbalização da energia interior, o Kime é a expressão física
(corporal) dessa fonte vital que num momento aflora do ser com pausada força irrefreável
ou com extraordinária violência.
A modo de exemplo comparativo poderíamos utilizar a energia vulcânica que
se manifesta quer através de manso rio de lava quer de violenta erupção, é em ambos caso
incontrolável.
No exercício das artes marciais e do karate em particular o termo kime, sinônimo
dessa erupção violenta, é utilizado para indicar a realização total e plena de uma
ação efetiva, com a que se trata de conseguir num dado momento uma execução técnica
na qual a união de concentração e poder transbordam ao adversário. Para isso é necessário
canalizar toda a energia, tanto física como mental, anulando a ação consciente dos
sentidos e do ambiente habitual, inibindo a afirmação do "eu" interno, e partindo para o
caminho do "não pensar" libertando a energia vital própria, mas concentrando-a num
momento dado de acordo com a atuação física.
4.4. ATITUDE MENTAL
Entende-se atitude mental como o estado de consciência que apresenta um ser
inteligente diante de qualquer situação concreta, podendo ser favorável ou contrária ou de
indiferença. Portanto, o indivíduo adotará ações de resposta direcionais que vão determinar
a sua linha de conduta perante os diferentes estímulos.
No exercício das artes marciais é fundamental, para compreender as diferentes
atitudes mentais que ocorrem, realizar uma espécie de divisão prévia das motivações
que provocam reações adversas e fora do normal em cada indivíduo. Isto posta, o treinamento
marcial pode ser direcionado para o desenvolvimento de atitudes mentais que beneficiem
o praticante quando se deparar com situações, cotidianas ou não, que possam
colocá-lo na defensiva ou sem ação.
O karate procura lapidar o espírito de seus praticantes através das agruras sofridas
pelo corpo durante os rigores de seu treinamento.
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Pesquisa comparativa de métodos de lutas


Há algum tempo atrás, os americanos efetuaram uma pesquisa com o objetivo de identificar qual seria a melhor luta (os americanos adoram uma pesquisa) não sei precisar exatamente onde li essa matéria.
A matéria declara que para se poder chegar a um resultado justo, era preciso qualificar e quantificar as várias situações perigosas que uma luta poderia resolver. Não me lembro de todas as questões, mais era algo assim:
1. Briga na arquibancada de um estádio de futebol lotado.
2. Briga dentro de uma danceteria lotada.
3. Agressão sofrida por duas ou mais pessoas.
4. Agressão sofrida na praia por uma ou mais pessoas.
5. Briga por desavença pessoal, conhecida como mano-a-mano.
6. Agressão sofrida com pau, cadeiras, bancos, ou coisa correlata.
A Pesquisa discorria entre as muitas situações que uma pessoa normal pode se ver envolvida, a pontuação era de um a cinco, se não me engano quase todas as artes de luta conhecidas foram elencadas, tais como: Karate, Jiu Jitsu, Judo, Boxe, Greco Romana etc.
O Karate ficou em primeiro lugar, o Judô em segundo, o Tae kon do em terceiro e se não engano o Jiu Jitsu ficou em quarto ou quinto lugar, pois eles consideraram que o Jiu Jitsu precisa de um lugar com espaço, somente com um oponente, sem tempo estabelecido, enquanto que outras lutas podem se defender me qualquer lugar, contra mais de um oponente e em tempo record.
Vou pesquisar para ver se acho essa pesquisa.
Naturalmente, sempre que vamos "ver" se algo é melhor que outro, é necessário conhecermos as regras, por exemplo:
Numa disputa entre um tigre e uma tartaruga, qual seria o ganhador???
Depende... Se fosse no quesito idade, a tartaruga ganharia...
As regras devem ser bem estabelecidas para que uma das lutas não saia prejudicada.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Contagem no Karate


Olá a todos ...recentemente recebi uma visita no dojo de um amigo que chegou a pouco tempo do japão. Após assistir a aula, indagou sobre a contagem e falou que no japão não estou mais usando a palavra "SHI", inclusive nas escolas, ficando a contagem da seguinte forma: it ; ni ; san ; YON ......Explicou-me que a palavra "SHI" está associada a morte, por isso essa mudança no japão. Alguém aqui do forum pode confirmar isso........
abraços

Ary - Santos/SP



Também tinha esta dúvida e pedi uma explicação ao meu Sensei de Nihongo (Língua Japonesa). Abaixo transcrevo sua resposta... talvez seja útil:


Citar
Quando usar SHI ou YON, SHICHI ou NANA?

Não há ainda uma regra que estabeleça quando usar uma ou outra forma.

Alguns estudiosos afirmam que a utilização depende se quisermos dar um ar mais "nativo" (Yon) ou mais genérico (Shi) uma vez que os Japoneses, antes de importarem a escrita Chinesa, tinham os seus próprios números nativos:

1 - HITOTSU
2 - FUTATSU
3 - MITSU
4 - YOTSU
5 - ITSUTSU
6 - MUTSU
7 - NANATSU
8 - YATSU
9 - KOKONOTSU
10 - TÔ

Depois de importarem a escrita chinesa (KANJI) a forma de leitura chinesa dos números foram incorporadas à leitura:

1 - ICHI (Em chinês: Yi)
2 - NI (Èr)
3 - SAN (San)
4 - SHI (Sì)
5 - GO (Wû)
6 - ROKU (Lù)
7 - SHICHI (Qì)
8 - HACHI (Ba)
9 - KU / KYÛ (Jîu)
10 - JÛ (Shí)

Uma vez que a pronúncia da palavra "morte" (死) também é "SHI", esta palavra é normalmente evitada. Por isso o melhor é usar YON... mas não é obrigatório.

Fato: qualquer uma das formas que apresentas é correcta e pode muito bem ser utilizadas à vontade

(Esse assunto ainda está em discussão nos meios acadêmicos e parece não ter um fim a vista - apesar de alguns casos já estarem estabelecidos como corretos, como por exemplos são os casos de Yon-dan e Shichi-dan ao invés de Shi-dan e Nana-dan... e assim por diante.)

Abraço,
Denis Andretta.


Fonte: Karateca.net

terça-feira, 6 de julho de 2010

Karate - mais uma vez fora das Olimpíadas (Editorial)



É pessoal, os representantes dos CON que participavam em votação para escolha de duas novas modalidades acabaram não optando pelo Karate mais uma vez. O Karate iniciou bem, mas a cada rodada de votação foi perdendo pontos e acabou atrás do Rugby e do Golfe (!!!).




Independente de mais esta peculiaridade do mundo dos 'Anéis' cabe lembrar que o Karate continua sendo:




1) "A arte marcial mais praticada no mundo, com 50 milhões de praticantes em 2008".

Jason Chambers em 'Human Weapon' para o History Channel.

2) "O estilo que conquistou o mundo do MMA (literalmente) com nosso grande Lyoto Machida."

Danna White, presidente do UFC

3) "A arte marcial que mais detona nos Games -quem tira o Ryu das capas dos jogos de luta?-"

Resultado do meu TCC em 'Educação Física e Mídia'

4) Um ótimo tema de filmes.

Como bem mostrado na obra prima 'Kuro Obi' e nos vários filmes do Jean Claude Van Damme.

E tá bem... até na série Karate-Kid.

5) "Uma das práticas corporais mais completas que exige domínio sobre cada parte do corpo e sobre praticamente todas as habilidades motoras, exigindo também o desenvolvimento fisiológico dos aspectos da força, capacidade aeróbica e anaeróbica".

David Nunan - fisiologista inglês

6) "Um dos maiores fenômenos culturais do planeta, que como prática corporal se apresenta como manifestação de Caminho de autoconhecimento, de modalidade esportiva de espetáculo, de lazer ,e até esporte da escola em muitos locais; de técnica de defesa pessoal, luta de contato e fundamentalmente: de um dos maiores veículos de disseminação da cultura e tradição oriental no mundo".

Linha de Estudo do 'Karate Science'



Se você se desanimou com o título deste artigo, repense os fatos. Ler algumas obras de autores bem conhecidos como "Os Senhores dos Anéis" também ajuda a entender que ter o status de 'Esporte Olímpico' não é tudo isso...

OSS

Nova Ciência e Espiritualidade no Karate-Do (Psicologia)



Uma breve colocação sobre a obra de Gichin Funakoshi

Sabemos que o mestre Funakoshi escreveu inúmeros livros, mas que nem todos estão disponíveis para pesquisa atualmente. Após a escrita dos primeiros dois livros [Ryuukyuu Kenpou: Karate – “O método dos punhos de Ryuukyuu: Karate” e Rentan Goshin: Karate Jutsu – “Defesa pessoal externa: técnicas de Karate”] o mestre lançou outros textos que são mais facilmente encontrados: Karate-Dou Kyoohan [que contém histórico e fotos da execução dos Kata], Karate-Dou Nyuumon [que contém a explicação da evolução da nomenclatura, a base histórico-filosófica da arte e as fotos do Ten-no-kata] e Karate-Do: meu modo de vida [uma autobiografia escrita pouco antes de seu falecimento]. Além destes, podemos encontrar facilmente o livro “Os Vinte Princípios Fundamentais do Karate: o legado espiritual do mestre” compilado por Genwa Nakasone, que comenta e explica o Niju-Kun, os “vinte ensinamentos” do mestre Funakoshi. Outros livros importantes são a coletânea “O Melhor do Karate” e “Karate Dinâmico” de Masatoshi Nakayama, “The Heart of Karate-Dou / O Coração do Karate” e “Karate-Dou” de Shigeru Egami e “Três Mestres do Budô: Kano, Funakoshi, Ueshiba” de John Stevens. Ao pensarmos estas obras, construímos o projeto que passamos a apresentar aqui.

Como a maioria sabe, Funakoshi-sensei era budista. Partindo daí devemos entender que ele trazia toda uma visão de mundo fundamentada não apenas nos princípios desta religião mas também que, como neto de professores de literatura, havia aprendido as lições contidas nos Clássicos Chineses [coisa reservada apenas aos guerreiros de classe alta e nobres durante a maior parte da história japonesa, país ao qual Okinawa pertencia desde 1600].
Mais importante que isso, Funakoshi parecia ser membro de um dos segmentos “místicos” do budismo, diferentes do Zen tão comentado no meio dos praticantes de artes marciais. Isso também parece ser a realidade da maior parte do povo de Okinawa da época. Uma das evidências diretas disso, na obra de Funakoshi é a história descrita em “Karate-Dou Nyuumon” onde relata o combate entre Karate Uehara e Sokon Matsumura, onde após o enfrentamento comentam sobre o sentido do viver e a relação com a concepção budista da realidade formada pelos 5 elementos [terra, água, fogo, vento e vazio]. A crença nestes conceitos é fundamental para a mudança do nome e dos objetivos do Karate como arte. Várias outras passagens de seus textos se referem à elementos da concepção cosmológica, psicológica e espiritual típica do budismo, que vão acabar na ideia de Karate-Dou, significando: Kara [vazio] – o mesmo ideograma para o Vazio, ou seja o 5º elemento do budismo, a base fundamental de todo o Universo; Te [mão] – o ideograma presente desde os primórdios do desenvolvimento da arte; e Dou [Totalidade ou Caminho] – o sufixo obrigatório a todas as disciplinas registradas na Butoku-kai e que permanece como um dos principais problemas de interpretação teórica até hoje. Por um lado, a semântica do ideograma “Dou” durante este episódio histórico já se referia a um “novo” significado, pois o contexto social estabelecido após a Era Meiji pretendia que este ideograma viesse a significar “caminho”, uma senda ética a ser percorrida por uma pessoa para seu desenvolvimento moral, transformando-o num indivíduo de caráter e útil para a sociedade. Noutra interpretação, o ideograma pode estar representando o significado original, usado durante milênios desde os taoístas chineses, onde Dou=Tao, ou seja, Dou significando Totalidade, Consciência, Self Universal, etc. Esta interpretação não pode ser desconsiderada pois o mestre Funakoshi parece mis ligado a ela, o que era comum na cultura de Okinawa do período, do que à nova interpretação japonesa do kanji.
No primeiro caso, para o mestre Funakoshi, Karate-Dou significaria “Caminho da mão do Vazio” – um Vazio com letra maiúscula, a base fundamental do Universo.
No segundo caso, Karate-Dou significaria “mão do Vazio Universal”, ou algo próximo a isso.
Em ambos os casos devemos desconsiderar a interpretação de “mão vazia” como um arte sem armas, de “mãos livres de armamento”, pois o próprio mestre refuta essa interpretação em Karate-Dou Nyuumon.

Aprofundaremos nos próximos posts a interpretação sobre o “Vazio” como um dos 5 elementos do Budismo e falaremos sobre o significado e os objetivos da arte proposta pelo mestre Funakoshi que, como muitas ideias de grandes pensadores, foram elaboradas e apresentadas sobre alicerces e visões de mundo deslocadas do tempo e do estágio de consciência que a maior parte da humanidade se encontrava.



REFERÊNCIAS

BARREIRA, C. R. A.; MASSIMI, M. As Idéias Psicopedagógicas e a Espiritualidade no Karate-Do segundo a Obra de Gichin Funakoshi. Revista Psicologia: Reflexão e Crítica. 2003. v.16, n.2, p. 379-388.

BLÓISE, P. V. O Tao e a Psicologia. São Paulo: Angra, 2000.

EGAMI, S. The Heart of Karate-Dō. Tóquio: Kodansha Intenational, 2000.

FROSI, T. O. Em busca de novos caminhos para o viver no tempo livre: lazer em uma perspectiva transdisciplinar e integral. Lecturas Educación Física y Deportes (Buenos Aires), v.15, maio 2010.

FUNAKOSHI, G. Os Vinte Princípios fundamentais do Karatê: o legado espiritual do Mestre. São Paulo: Cultrix, 2005.

__________. Karatê-Dō - Meu Modo de Vida. São Paulo: Cultrix, 2000.

__________. Karatê-Do Nyūmon: Texto Introdutório do Mestre. São Paulo: Cultrix, 1999.

__________. Karate-Dō Kyōhan: The Master Text. Tóquio: Kodansha International, 1973.

GOSWAMI, A. A Física da Alma: a explicação científica para a reencarnação, a imortalidade e experiências de quase-morte. São Paulo: Aleph, 2008a.

GOSWAMI, A. O Universo Autoconsciente: como a consciência cria o mundo material. São Paulo: Aleph, 2008c.

NAKAZATO, J.; OSHIRO, N.; MIYAGI, T.; TUHA, K.; KOHAGURA, Y.; HIGAONNA, M.; TAIRA, Y.; SAKUMOTO, T. Okinawa Karate and Martial Arts with Weaponry. Okinawa: 2003. Disponível em: www.wonder-okinawa.jp/023/eng, acesso em: 20 jun. 2005.

SCHUMACHER, Mark. Japanese Budhist Statuary: Gods, Goddesses, Shinto Kami, Creatures and Demons. 1995. Disponível em: http://www.onmarkproductions.com/html/ssu-ling.shtml, acesso em: 29 mar. 2010.

SHINJYO, K.; SENAHA, S.; ONAGA,Y. Three Major Schools of Okinawa Karate. Lake Forest, CA: YOE Incorporated, 2004. 2 DVD.

STEVENS, J. Três Mestres do Budô: Kano, Funakoshi, Ueshiba. São Paulo: Editora Cultrix, 2005.

WILBER, Ken. Uma Teoria de Tudo: uma visão integral para os negócios, a política, a ciência e a espiritualidade. São Paulo: Cultrix, 2007.

WILBER, Ken. Psicologia Integral. Consciência, Espírito, Psicologia, Terapia. São. Paulo: Cultrix, 2002.

O Arquétipo do Guerreiro e as conexões transculturais com o taoismo chinês no Shotokan (Psicologia)



Algumas informações são extremamente difundidas na internet, muitas delas sem o tratamento adequado dos dados. Pensando no que o símbolo do Shotokan representa, muitos autores atribuem a pintura do tigre à Hoan Kosugi, um artista japonês que seria membro de um dos grupos que solicitou à Funakoshi que permanecesse no país ensinando após a demonstração na I Semana Atlética nacional (FUNAKOSHI, 2000).


O famoso Tora-no-Maki (tigre no círculo) é usado ostensivamente como referência ao estilo de Gichin Funakoshi, tendo sido a capa de seu primeiro livro (provavelmente Rentan Goshin Karate Jutsu). A informação difundida é que Kosugi teria pintado o símbolo para representar força e coragem, dois aspectos fundamentais do Karate. Ora, força e coragem que Platão chamou de arquétipos, são padrões mentais/emocionais. Mas o que há de evidência histórica nisto? Provavelmente a coisa não é tão simples.


Sabemos que o símbolo do Judô, representa o espelho, uma das três joias do Xintoísmo, e que os símbolos do Aikidô: o círculo, o triângulo e o quadrado, representam as três joias do Xintoísmo (o espelho –círculo-, a espada -triângulo- e a gema -quadrado-). O pensamento místico, do desenvolvimento espiritual através das vias ascéticas e meditativas, permeava o pensamento dos mestres orientais no período. Sabemos também que Funakoshi teve relações de amizade com Kano e Ueshiba (STEVENS, 2005). Há uma diferença porém: Funakoshi nãoera japonês, e portanto, pouca influência do Xintô, o culto indígena japonês, deve ter tido. Suas concepções budistas iam em outra direção simbólica. Como é clara a ligação entre o Karate e os estilos marciais chineses internos, especialmente o do grou, ou garça branca, é importante pensarmos sobre possíveis conexões entre o pensamento dos guerreiros que tinham como caminho o Karate e os sistemas filosófico-religiosos chineses.


Quanto a isso, em finais de 2009, tivemos a felicidade de obter um denso material sobre o budismo e vários sistemas religiosos do professor Schumacher (2004). Entre estes, havia muitas referências aos cinco animais sagrados guardiães das direções cardeais e das constelações do firmamento: Genbu (a tartaruga negra – elemento terra/água), Seiryu (o dragão azul – elemento água/madeira), Byakko (o tigre branco – elemento vento/metal), Suzaku (o pavão vermelho – elemento fogo) e Huang Long (o dragão amarelo – elemento éter/terra). Ora, o elemento vento ou metal, das coisas lineares e que tem direcionamento, que remetem à nossa capacidade do pensamento, estão conectados aos arquétipos junguianos do guerreiro e do líder. Por acaso ou não, portanto, Funakoshi teria utilizado o arquétipo taoista do caminho do Guerreiro para dar identidade ao seu estilo, ao Karate. O relevo taoista acima, do século VI a.C. parece não deixar dúvida quanto à conexão da imagem do Tora-no-Maki com o Byakko taoista, ambos representando o caminho do guerreiro, o norte, o vento ou metal, os pensamentos, o uso correto do poder, o posicionamento, a capacidade de estar presente e os diferentes significados ligados a este símbolo.



REFERÊNCIAS

ARRIEN, Angeles. O Caminho Quádruplo: trilhando os caminhos do Guerreiro, do Mestre, do Curador e do Visionário. São Paulo: Ágora, 1998.

CARR, Michael. Chinese Dragon Names. Linguistics of Tibeto-burman Area. Melbourne, v. 13, n. 2, p.87-90, out. 1990.

FUNAKOSHI, G. Karatê-Dō: Meu Modo de Vida. São Paulo: Cultrix, 2000.

_______________. Karatê-Do Nyūmon: Texto Introdutório do Mestre. São Paulo: Cultrix, 1999.

_______________. Karatê-Do Kyōhan: The Master Text. Tóquio: Kodansha International, 1973.

JUNG, Carl Gustav. O Homem e seus Símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1996.

JUNG, Carl Gustav. Sobre os Arquétipos do Inconsciente Coletivo. Zurique, 1954.

MACIOCIA, Giovani. Os Fundamentos da Medicina Chinesa: Um texto abrangente para Acupunturistas e Fitoterapeutas. São Paulo: Roca, 2007. 1000p.

NAKAZATO, J.; et. al.. Okinawa Karate and Martial Arts with Weaponry. Okinawa: 2003. Disponível em: www.wonder-okinawa.jp/023/eng. Acesso em: 20 jun. 2005.

SCHUMACHER, Mark. Japanese Budhist Statuary: Gods, Goddesses, Shinto Kami, Creatures and Demons. 1995. Disponível em: http://www.onmarkproductions.com/html/ssu-ling.shtml, acesso em: 29 mar. 2010.

STEVENS, J. Três Mestres do Budô: Kano, Funakoshi, Ueshiba. São Paulo: Editora Cultrix, 2005.

Shorin e Shorei - a herança chinesa (História)



Shorin-Kan

Na China desenvolveram-se duas formas de praticar formas de luta organizadas. A mais antiga, remete a um jogo sangrento chamado Go-Ti, criado por um igualmente sangrento ‘senhor da guerra’ chamado Chi-yu há cerca de 2600 anos. Militarmente, a origem da organização guerreira para proteção dos castelos, fortificações, templos e para expansão militar remete às ações do Imperador de Huan Ti (o famoso Imperador Amarelo, que reinou entre 140 e 87 a.C.). Neste período foi formada uma classe guerreira na China que praticava manobras em massa e técnicas de luta com lanças e bastões. Séculos depois, por volta de 520 d.C. Surge o monge indiano Ta Mo Lao Tsu, que vindo da China, estabeleceu-se no Mosteiro Songshan Shaolin, na província de Wei. Conta a lenda que este monge, então chamado Bodhidharma, teria introduzido diversos exercícios respiratórios e corporais (semelhantes à Yoga) além das tradições do Budismo. Com isto, Bodhidarma (ou Bodai Daruma, em japonês) foi duplamente importante para as artes marciais, pois teria fundado não apenas o estilo de luta de Shaolin como também seria o primeiro patriarca do Zen Budismo.
Tendo as técnicas de Bodhidharma evoluído para os estilos externos (ou duros), saindo do Shaolin primordial para tantos outros como Wing Tsun, Hung Gar e as versões modernas de Shaolin, também esta escola foi exportada para Okinawa, onde passou a ser conhecida como Shorin-kan. Ou seja, Shorin no Karate-Do são as manifestações da união dos estilos externos do Wushu Chinês ao Te de Okinawa. Desta fusão procedem as técnicas predominantes em estilos oriundos do Shuri-Te.


Shorei-Kan

Com o advento da filosofia Taoísta na China, especialmente através da obra de Lao Tzu, desenvolveu-se uma forma diferente de ver o mundo. Esta visão baseava-se na compreensão dos aspectos Yin (suave, feminino, negativo, ondulatório) e Yang (duro, masculino, positivo, partícula) da energia C’hi (Ki em japonês) e suas manifestações na realidade. O objetivo dessas práticas era essencialmente descobrir o lugar do homem no Universo e a pureza original do ser humano. A partir do empenho de diversos mestres eremitas que vagavam pelo ‘país do meio’ desde aproximadamente 300 d.C. divulgando o Tao Te Ching, foram estruturadas e desenvolvidas as artes suaves da China.
Tendo essas técnicas evoluído para os estilos internos (ou suaves), desenvolveram-se estilos como Hsing-I, Pakua, Noi Kun e Taichi Chuan, que exportados para Okinawa, passaram a ser conhecidos como Shorei-kan. Ou seja, Shorei no Karate-Do são as manifestações da união dos estilos internos do Wushu Chinês ao Te de Okinawa. Desta fusão procedem as técnicas predominantes em estilos oriundos do Naha-Te.

Em seu livro ‘Karate-Do Nyumon’ o mestre Gichin Funakoshi chama atenção para o fato de que se deve cultivar equilibradamente os aspectos Shorin e Shorei da arte. Será que o fazemos?


Referências:

CAMPS, H.; CEREZO, S. Estudio técnico comparado de los Katas de Karate. Barcelona: Editorial Alas, 2005.

FUNAKOSHI, G. Karatê-Do Nyumon: Texto Introdutório do Mestre. São Paulo: Cultrix, 1999.

GONELLA, R. Do: Viaggio Attraverso il Karate alla Ricerca dell’antico To-De. S/L, 2003.

MINICK, Michael. O Pensamento Kung-Fu. São Paulo: Artenova, 1974.

PARKER, E. Segredos do Karatê Chinês. Rio de Janeiro, Distribuidora Record de Serviços de Imprensa S.A., 1963.

REID, H.; CROUCHER, M. O caminho do guerreiro: o paradoxo das artes marciais. São Paulo: Cultrix, 2004.

Simbologias Alegóricas no Reigi [UPDATED] (Etiqueta)



Ritsu-rei

Certa vez um aluno me questionou: ‘Sensei, porque fazemos essa saudação estranha e simplesmente não damos a mão?’ Talvez a maioria dos professores fosse responder (como acabei fazendo): ‘Ah, isso é costume de japonês.’ Mas não é bem por aí, esse movimento característico surgiu no Japão apenas depois de 1200 d.C., com a solidificação de uma classe social chamada Buke. O Buke era formado pelos Bushi (os guerreiros). Após diversos acontecimentos importantes (um processo que levou alguns séculos) esta classe guerreira tornou-se de longe a mais poderosa do país, tendo inclusive direitos assegurados pela lei como o de matar qualquer um que desrespeitasse um de seus membros. Até aí tudo bem, todos sabemos que os “samurai” (termo oriundo da expressão hira-zamourai que surgiu muito depois de Bushi e não era muito usado) controlavam o Japão, então você pode perguntar: ‘o que isso tem a ver com etiqueta?’ Tudo pequeno gafanhoto! Devido a esse poder ameaçador, garantido por lei, todas as pessoas de outras classes deviam prostrar-se perante um Bushi, fazendo exatamente o mesmo gesto que fazemos até hoje numa sessão de treinamento ou competição de arte marcial japonesa. A flexão de coluna à frente, acompanhada por um olhar de recolhimento, era a forma que os populares tinham de dizer ao guerreiro: ‘Confio-lhe minha vida, portanto se desejares decapita minha cabeça.’ E ai de quem não se prostrasse diante de um guerreiro que tinha conseguido uma lâmina nova e estava louco para testá-la...
Ritsu-rei é, portanto, uma alegoria que nos remete à repressão dos samurai (ou melhor, dos Bushi, membros do Buke) à população, em especial aos heimin (camponeses).


Jion, Ji'in, Jitte, Chinte

Uma importante simbologia dentro dos Kata Jion, Ji'in, Jitte e Chinte é oriunda de seu gesto técnico de abertura e finalização. Esse gesto, onde uma mão fechada é coberta pela outra mão, remete a um cumprimento chinês, que representava na antiguidade ‘respeito aos sábios e aos homens das artes marciais’, onde a mão cerrada simbolizava os guerreiros e a mão aberta, que a cobria, os sábios. Com a ascensão do Império Ming (1368 d.C. a 1644 d.C., período em que Okinawa era um Estado vassalo a esse Império), esse gesto mudou de significado. A partir de então, a mão curvada representava o dia e a mão cerrada representava a Lua, os símbolos usados no ideograma para Ming. A ascensão da dinastia Ming foi importante para a China, pois representou o fim da dinastia Yuan, através da qual os mongóis governavam o ‘país do meio’. Vale lembrar que foi exatamente no período desta dinastia que militares como Kung Sian Chun (Kushanku) estiveram em Okinawa nos Sapposhi, ensinando artes marciais. Entendemos, portanto, que esse gesto é mais uma alegoria que corrobora para percebermos a grande influência do Quan Fa chinês no desenvolvimento do Karate-Do, pois um gesto da etiqueta das artes marciais chinesas ainda está presente nos Kata de Karate, mesmo após um longo processo de ‘niponização’ da arte.


Referências (para a série de posts sobre reigi)

BÜLL, Wagner J. Aikidô - o Caminho da Sabedoria. São Paulo: DAG Gráfica e Editorial Ltda., 1988. 1ª edição.

CAMPS, H.; CEREZO, S. Estudio técnico comparado de los Katas de Karate. Barcelona: Editorial Alas, 2005.

CRAIG, D. M.. A Arte do Kendô e do Kenjitsu: a alma do Samurai. São Paulo: Madras, 2005.

FUNAKOSHI, G. Karatê-Do Nyumon: Texto Introdutório do Mestre. São Paulo: Cultrix, 1999.

FUNAKOSHI, G. Karatê-Do Kyohan: The Master Text. Tóquio: Kodansha International, 1973.

GOULART, J. Portal Judô Fórum. Disponível em: , acessado em 15 jul 2009.

JKF, Japan Karate-do Federation. Karate-Do Kata Kyohan Shitei Kata: Kata Model for Teaching. Tóquio: Japan Karate-do Federation, 2008.

LOWE, B. Mas Oyama’s Karate: Cómo se enseña em El Japón. Buenos Aires: Editorial Glem S.A., 1967.

NAKAYAMA, M. O Melhor do Karatê: Visão Abrangente - Práticas. São Paulo: Cultrix, 2000. V. 1, 11 v.

PARKER, E. Segredos do Karatê Chinês. Rio de Janeiro, Distribuidora Record de Serviços de Imprensa S.A., 1963.

RATTI, O.; WESTBROOK, A. Segredos dos Samurais: As Artes Marciais do Japão Feudal. São Paulo: Madras, 2006.

REID, H.; CROUCHER, M. O caminho do guerreiro: o paradoxo das artes marciais. São Paulo: Cultrix, 2004.

SEBA, José A. Oliva. Artes Marciais: Curso Prático. Penha: Editora Século Futuro, 1986.

STEVENS, J. (Org.). Segredos do Budô. São Paulo: Editora Cultrix, 2001

Reigi - Ritsu-rei, o início e o fim do treino [UPDATED] (Etiqueta)



Sa-za-u-ki (forma correta de sentar e levantar)

No Karate, como em outras artes marciais japonesas, o modo correto de sentar e levantar são muito importantes, fazendo parte do ritual de início e término dos treinamentos. É um conhecimento que demonstra não apenas o respeito pelas tradições e pelos colegas, mas também o refinamento da etiqueta pessoal, junto de todos os outros cuidados já citados que vem sendo cultivado desde o período dos primeiros guerreiros do Japão.

Para sentar, o pé esquerdo é levado atrás, colocando-se primeiro o joelho esquerdo no chão. Depois disso o joelho direito repousa no solo, e se senta sobre os calcanhares, com as pontas dos dedos hálux se tocando.

Os homens devem sentar com os joelhos afastados, repousando as palmas das mãos sobre as coxas, com as pontas dos dedos para dentro.
As mulheres, por sua vez, posicionam os joelhos de forma que os mesmos se toquem e apontem para frente, repousando as mãos sobre os joelhos com as pontas dos dedos para frente.

Para levantar, o joelho direito é erguido antes e no movimento de levantar é que o joelho esquerdo é erguido e o pé alinhado com o direito. Deve-se passar da posição seiza (sentado), diretamente à posição de ritsu-rei (em musubi dachi) para realização das últimas reverências.



Cumprimento Inicial: sentado – Za-rei
(pronúncia: dzá-rê)

Para iniciar o ritual de saudação, após o alinhamento dos alunos, o professor comandará ‘Seiza’! (sentar-se).

1 – Kamiza – o local à fente do Shomen (onde fica o retrato do fundador ou outros adornos). É o lugar onde o professor (sensei) se coloca.
2 – Shimoza – o local onde os alunos com graduação kyu (mudansha) perfilam em ordem de faixas.
3 – Joseki – é o local onde os alunos yudansha (faixas pretas) ou alunos adiantados se sentam.
4 – Shimozeki – é a extremidade contrária ao Joseki, onde os alunos mais novos devem estar.

Da mesma forma que no cumprimento em pé (ritsu-rei), quando o za-rei é realizado, são pronunciados os mesmo comandos: Shomen-ni-rei (saudação ao fundador ou ao público), Sensei-ni-rei (saudação ao professor) e Otagai-ni-rei (saudação entre os colegas). A primeira flexão é feita em silêncio e as outras duas são seguidas da verbalização ‘OSU’!

Após a realização do ritual, o professor comanda ‘Kiritsu’! (levantar-se). Depois de todos os alunos porem-se em pé, é feita uma última vez uma saudação ritsu-rei.



Zazen e Mokuso

Mokuso é o comando para a prática de meditação/internalização no Karate. Geralmente realizado junto ao ritual de início e término da sessão de treinamento, é o momento onde se reflete sobre as ações antes do treinamento (o dia-a-dia) e dentro do treinamento (keiko). É um exercício deveras importante para acalmar o corpo e prepará-lo para iniciar uma nova prática. Numa prática mais ostensiva da meditação, o seu real objetivo pode ser alcançado, e este é o estado mental chamado Mushin (mente liberta).
A prática deve ser realizada de forma que busquemos esvaziar a mente de pensamentos, (mesmo que isso seja difícil, o objetivo maior leva a sucesso em tarefas não menos importantes) de imagens ou sons que circulem pela mente. No início deve-se colocar no ponto de vista do observador (como se fôssemos realmente um observador externo, como se assistíssemos a um programa de televisão), percebendo a gama de pensamentos que viajam pela mente. Com o tempo, após reconhecer estes pensamentos devemos procurar 'deletar' aqueles que percebemos inadequados, mantendo apenas os que servem para a tarefa a ser realizada a seguir. Apesar de estarmos tratando de Karate-Do, e por isso mesmo no momento em que nos propomos a meditar no início dos treinamentos buscamos preservar apenas os pensamentos relativos aos exercícios que praticaremos, não é menos importante 'limpar' a mente de pensamentos inadequados em qualquer tarefa do dia que estivermos realizando. É esta falta de habilidade em nos concentrarmos e focalizarmos nossa atenção apenas no que é importante que diversas pessoas sofrem de 'transtornos e atenção' e vários outros 'males' da 'vida moderna'.

Além disso, o ibuki (respiração) adequado é necessário. Assim, emprega-se em geral uma regra para aprender o ritmo que depois torna-se natural. Neste ritmo, inspira-se pelas narinas por quatro segundos, segura-se o ar por um segundo e expira-se pela boca por mais quatro, mantendo-se mais um segundo ‘esvaziado’. Pessoas com mais prática chegam a ficar até 10 segundos (às vezes mais) realizando as fases de expiração/inspiração, devido a seu elevado poder de ventilação pulmonar.
Durante a prática, a atenção deve se voltar para o fluxo de energia no hara (abdômen), e a postura deve ser a mais harmônica possível.

Reigi - Ritsu-rei, o início e o fim do treino [UPDATED] (Etiqueta) Parte 2


Cumprimento Inicial: em pé – Ritsu-rei
(pronúncia: ritsu-ree)

Flexão de coluna à frente de 30º, mantendo a coluna ereta de forma harmônica, o movimento se á apenas na base da coluna. O olhar tranquilo não se mantém a frente, o que causaria movimento desarmônico na coluna cervical.
Após a saudação, ao receber o comando de preparação (Yoi!) o praticante se coloca em posição natural/ de alerta (Shizen Tai).


Saudações no Ritual de Cumprimento

1ª Saudação: ao fundador ou à assistência: Shomen-ni Rei
(em silêncio)

2ª Saudação: ao professor: Sensei-ni Rei
(Pronuncia-se o ‘OSu’)

3ª Saudação: aos colegas: Otagai-ni Rei
(Pronuncia-se o ‘OSu’)


Saudações ao finalizar um exercício

Toda vez que um exercício é encerrado, o instrutor profere dois comandos: Yame (parar) e Yasume (descansar)

Ao comando de parada os alunos retomam a posição de alerta natural (Shizen-Tai), e ao receber o comando para descansar, antes de relaxar, os alunos realizam o cumprimento em pé (ritsu-rei), para então poderem descansar. A saudação conota o agradecimento pelo conhecimento recebido do Sensei.


Saudação ao colega

Na prática dos exercícios de luta (kumite), ao posicionar-se frente à frente com um colega, deve-se realizar o ritsu-rei (saudação em pé) toda vez que for dado início ao exercício ou quando este acaba. O mesmo deve acontecer numa competição, onde os adversários se saúdam no início e no final de cada disputa.


Entrada e saída do Shiai-jo

O Shiai-jo (área de treinamento), o local do Dojo (academia ou salão de treinamento e desenvolvimento espiritual) onde são realizados os treinos das técnicas e onde estão instalados os tatames, deve ser tratado com o devido respeito. A entrada e saída do Shiai-jo deve ser feita com o ritsu-rei (cumprimento de pé) e de forma que, para entrar se pise primeiro com o pé direito nos tatames e para sair se pise primeiro com o pé esquerdo fora dos tatames. O caminhar fora dos tatames deve ser feito com o zori (chinelo), ou outro calçado que evite que sujeiras sejam trazidas ao Shiai-jo.


Alguns aspectos da competição

Saudação
A saudação em pé (ritsu-rei) é realizada no início das categorias, no início de cada disputa, ao término de cada disputa e ao término de cada categoria. Os árbitros sinalizam o momento apropriado para realização da saudação e esta ocorre também durante a abertura oficial.

Zanshin
O estado de alerta, concentração e foco de atenção (zanshin) deve ser demonstrado durante toda competição pelo karate-ka como sinal de sobriedade e comprometimento com o evento. Falta de zanshin acarretará derrota no kata e possivelmente desclassificação no kumite antes do fim da disputa. Esta atitude também deve ser perseguida em todos os treinamentos, onde o karate-ka realmente pode cultivá-la.

domingo, 4 de julho de 2010

Karate: Ética em Karate-do




Já analisámos como se processa todo o cerimonial de treino em Karate-do. Falemos agora da saudação «Rei», como símbolo da ética nipónica, e de todo o espírito que envolve este simples gesto. Não esquecer que, em japonês, Rei, também significa vénia.

A primeira lição em Karate-do começa com a prática da saudação (Rei) já aqui abordada. Depois, então, ela é sempre praticada e recordada. A sua importância é demarcada ainda mais, quando começamos a treinar combate com um parceiro.

Sómente aqueles que entendem a profundidade do seu sentido, conseguem chegar aos mais altos níveis de competência na vida.

Karate-do é uma arte marcial e como tal, não tem fim, nem explicação sobre si mesma.

É através de um processo de treino intensivo e de uma rigorosa disciplina que tentamos compreender e atingir o «Michi» (caminho) ou o «Do» (Via), do Karate.

A importância de Rei, sem a qual, o Karate-do cessaria de existir, era inteiramente reconhecida pelo Mestre Funakoshi, que reafirmava sempre sobre a sua importância aos seus alunos, num dos seus 20 Princípios de Karate-do (Karate-do Ni Ju Kyokun), os quais, mais adiante abordaremos: ” O Karate-do começa com Rei e acaba com Rei ! ”

«Rei» pode ser defenido como a vontade de estabelecer um relacionamento, baseado na mútua confiança, boa-vontade, a compreenção e o respeito pelos sentimentos dos outros, demonstrando o nosso respeito.

Na sociedade, é um modo de estabelecer a harmonia entre as pessoas, por formas a contribuir para uma nova sociedade e, consequentemente, um Mundo melhor.

«Reigisaho» significa “código de etiqueta”, e é a melhor forma de expressar este conceito em sociedade. Todo aquele que treina Karate-do deve tentar compreender o profundo significado de Rei, e por sua vez, pôr em prática na vida do dia-a-dia, comportando-se sob os princípios de Ética.

Karate-do é natural e, como tal, deveria ser aplicado na nossa vida diária.

Na prática, Rei é a cerimónia ou a formalidade entre duas ou mais pessoas, as quais, ao encontrarem-se, trocam entre si, o seu respeito, a sua confiança.

Rei é, acima de tudo, a vontade de respeitar a dignidade humana e de demonstrar esse respeito. É uma maneira de desenvolver o relacionamento entre as pessoas e por conseguinte, de ordem social.

«Setsu» é a expressão desta atitude, tanto em Ritsurei, como também, e neste caso ainda mais realçado, em Zarei, conforme atrás foi referido.

Sómente aqueles que praticam Karate-do devem aprofundar a compreenção e o espírito de Rei, e observar, rigorosamente, as regras de «Setsu», nas relações humanas e sociais.

Perguntaram um dia ao Mestre Kanazawa, porque razão, todas as pessoas, desde o polícia ao empregado de restaurante, passando pelo simples guarda de jardim, e demais gente anónima, porque motivo é que toda a gente era tão educada e simpática, uns para os outros, isto numa breve comparação com as gentes do nosso burgo, ao que o Mestre respondeu: - “Todo o Japão é um conjunto de ilhas. Se não fôssemos delicados uns com os outros... (sorrindo-se), acabaríamos todos afogados na água, não acha?”

As regras de comportamento e etiqueta estão reunidas num conjunto de preceitos, denominado em japonês "REIGISAHO", o que quer dizer em português, «Código de Etiqueta», e que pretende regular, o comportamento de todos os praticantes, num permanente e rigoroso chamamento de atenção ao respeito por “si próprio”, pelos outros, bem como, à auto-disciplina.

São regras que devemos assumir, conscientemente, perante a Associação e a Escola, perante o Dojo e o Sensei, e até, perante nós próprios e a própria Vida.
REIGISAHO

1º. – Ao entrarmos para uma Escola, para aprender Artes Marciais, não devemos suspender o estudo sem uma razão válida;
2º. – Devemo-nos conduzir de maneira a nunca manchar a Tradição e a Honra da Escola;
3º. – Em caso de acidente, não devemos culpar, seja quem for, a não ser nós próprios, e assim, libertaremos a Escola ou os seus membros de qualquer responsabilidade;
4º. – Não devemos fazer qualquer exibição em público, para ganho pessoal;
5º. – Sem permissão dos Mestres, não devemos ensinar, nem divulgar, qualquer segredo a ninguém;
6º. – Não devemos abusar, nem fazer uso dos nossos conhecimentos, em Artes Marciais, seja a que pretexto fôr;
7º. – Sempre que se entra, ou sai, de um Dojo, devemos saudá-lo, com uma ligeira vénia;
8º. – Devemos respeitar os praticantes mais graduados, e ajudar os de menor graduação;
9º. – Quando não estivermos a treinar, devemos tomar uma atitude correcta, mesmo quando fatigados, ou ainda, em momentos de explicações ou de demonstrações, mais prolongadas, por parte do Sensei. As posições de amolecimento ou de enfraquecimento não fazem parte da Ética. Devemos adoptar sempre uma posição altiva e de respeito.
10º. – Devemo-nos conservar em silêncio, sem falar durante as aulas, excepto, quando formos interpelados directamente pelo Sensei, e ao fazê-lo, que seja em tom baixo e respeitoso, numa breve intervenção. As dúvidas surgidas ao longo do treino, só devem ser colocadas no final da aula, ou, quando o Sensei criar pausas para repouso ou explicações;
11º. – Devemos ter cuidado constante com a limpeza corporal, não trazer qualquer peça de vestuário por de baixo do Kimono (Gi), salvo truces, cortando as unhas das mãos e dos pés;
12º. – Devemos manter o «Gi» vestido correctamente, com a calça ajustada à cintura, e o casaco bem composto, devendo ter sempre presente a divisa, (o cinto = Obi);
13º. – Antes de cada treino, devemos despojarmo-nos de todos os adornos e enfeites, como sejam anéis, pulseiras, fios, brincos, relógios, etc.;
14º. – Devemos respeitar os horários das aulas. As entradas tardias, ou as saídas antecipadas, são consideradas manifestações de menos respeito e falta de auto-disciplina, pelo que devem ser evitadas, no entanto, é preferível participar durante meia-aula, do que não treinar. Igualmente, devem ser evitadas as saídas temporárias, para satisfação de necessidades fisiológicas. Estas, devem ser prevenidas antes de se entrar no Dojo;
15º. – Sempre que se treinar com um companheiro de treino, devemos saudá-lo, antes e depois, e sempre com o «Gi» apresentável;
16º. – Não devemos procurar ser fortes, mas justos, nem procurar a vitória sobre os nossos companheiros de treino, mas sim a vitória sobre nós mesmos, através de princípios correctos;
17º. – Devemos possuir inteligência, para compreender aquilo que nos ensinam, paciência, para ensinar o que aprendemos aos nossos semelhantes, e fé, para acreditar naquilo que ainda não sabemos;
18º. – Devemos cultivar a máxima concentração durante o treino, de modo a obtermos uma melhor assimilação, por parte da instrução;
19º. – Devemos aprender e a saber, cada dia, um pouco mais, e usar esses conhecimentos todos os dias para o Bem.
20º. – Devemos cuidar da nossa atitude no Dojo, permanecendo calmos e serenos, o que não exclui o bom-humor.

Devemos respeitar, estritamente, estes regulamentos, (Reigisaho), não só durante o nosso estágio de aluno (gakusei), mas também, mesmo depois de termos sido graduados Senpai.

Existe igualmente, «Os 20 Princípios Regulamentares do Karate-do», o “KARATE-DO NI JU KYOKUN”, que nos foram legados por Gichin Funakoshi, o qual, como já vimos, foi o Grande Mestre, Criador e Codificador do Karate-do.
«Kyokun» significa preceito, mandamento, lei, regulamento, por extensão, “regra de ouro”.
«Os 20 Princípios Regulamentares do Karate-do», correspondem pois, de certo modo, aos Dez Mandamentos, de Moisés, do Antigo Testamento, (O Decálogo do Monte Sinai), ditado por Yavhé / Geová, o Deus dos Judeus; correspondem, igualmente, às Quatro Nobres Verdades, bem como, à Nobre Senda Óctupla, ditada, aos seus discípulos, por Sidharta Gautama, o Buda.
Nesse sentido, os Kyokun são como que, Regras de Ouro, inelidíveis, quase que divinas, as quais, foram concebidas para nos ajudar a alcançar um domínio quase que absoluto, tanto interno como externo, de Despertar e de Sabedoria.
Todos os preceitos constam de vários níveis de compreensão, conforme o nível que se alcança, e eram transmitidos oralmente aos discípulos mais chegados, ou melhor dizendo, aos iniciados, à guisa de “koan” do Zen, onde, depois, eram analizados e comentados, em grupo, até ao Despertar total, «Satori» em japonês.
Alguns Mestres do passado, em circunstâncias várias, porque eram amigos ou discípulos de Gichin Funakoshi, transmitiram por escrito estes preceitos, dando interpretações diferentes, conforme o seu nível de mestria, mas sempre com a mesma base, com o mesmo propósito.

Recuando um pouco no tempo, e porque um pouco de história, não faz mal a ninguém, o Mestre Funakoshi extraíu estes preceitos de uns textos, provenientes dos seus mestres, Azato de Naha-te e Itosu de Shuri-te, os quais, por sua vez, extraíram de textos chineses da velha escola «Shaolin», onde se fazia referência, numa generalidade, à «Arte Marcial», a qual, o Japão sonegou, dividindo-a mais tarde, após a época de 1600, em várias artes marciais, Arte Marcial essa, denominada «Wu-Shu» isto é, “Mão da China”.

Curiosamente, e com os mesmos ideogramas, «kanji», isto é, caracteres clássicos, «Wu-Shu» traduziu-se para japonês, «Bu-Jutsu», isto é, “Artes de Guerra”.

Ora, o Mestre Funakoshi não fez senão adaptá-los à realidade japonesa, sem contudo, modificar o seu sentido mais profundo.
E foi aqui que residiu a grande cisão ideológica por parte do Mestre.
Ao aperceber-se do sentido bélico que tais palavras carregavam, e em vez de alterar o conteúdo da mensagem, como muitos instrutores hoje, infelizmente e interceiramente o fazem, alterou, isso sim, o foco dessa mesma mensagem.
À expressão “Mão da China”, “Wu-Shu” em chinês, lia-se em japonês, “Kara- -te”, donde o ideograma «Kara» significava «Cathay», isto é, “Antiga China”. Gichin Funakoshi, em 1933, modificou o caractere antigo, por um ideograma de proveniência budista, e como tal, de cariz filosófico: «Vazio», o qual, fazendo alusão à técnica de meditação do budismo, também ele importado, vinda da Índia, (Dyhana), via China, (Tchena), o qual, originou no Japão, o Zen.
Mais tarde, é-lhe acopulado a expressão vocal «Do», ao ideograma japonês «Michi» (Caminho), proveniente do «Tao» chinês e com o mesmo ideograma.
Isto pode restabelecer nos espíritos mais incautos, uma certa confusão.
Na realidade, a situação é típicamente japonesa misturar-se religiosidades, isto é, nasce-se “taoísta”, casa-se “shintoísta” e morre-se “budista”.
Eis-nos pois, perante uma grande realidade: é que existe uma diferença, abismal, entre o Karate, antigo, tradicional, tal qual nos foi transmitido por Gichin Funakoshi, e o Karate moderno, o qual, curiosamente, também é tido por “tradicional”.
Qual será a razão de silêncio, de alguns mestres japoneses, acerca dos verdadeiros “Kyokun”?
Podemos afirmar que todos aqueles que ensinam, aqui no Ocidente, conhecem o que é “Kyokun”. Agora, que os tenham estudado ou, que os tenham comentado, e como consequência, tenham entrado em profundidade no seu conhecimento..., isso já é outra coisa!
Para quê complicar-se a vida, quando se está dotado para o combate desportivo e quando temos o nosso ganha-pão garantido, ensinando uma forma de Karate que satisfaça a um número elevado de praticantes?
Talvez seja a razão da importância destes Kyokun, ou do seu «hermetismo» para o praticante comum, mas no entanto é estranho, quando não, inquietante, que esses mesmos “Mestres”, vindos ao Ocidente para transmitir-nos o Karate, que enfim, conhecemos, que dizem ser «tradicional», não façam senão, rara vez, alusão aos Kyokun, salvo em dois casos distintos:

1.
o Primeiro Kyokun, porque lhes convém o respeito pelo «mestre», ainda que, rara a vez que se o viva interiormente;
2.
Segundo Kyokun, porque não podem agir de outra maneira, sendo este Kyokun uma ladaínha, quase que constante, do Mestre Funakoshi.

Enfim,...

Analisemos, seguidamente, e sem quaisquer comentários adicionais, cada um dos 20 Princípios Regulamentares do Karate-do.

MUSHIN: O ESTADO DE NÃO-MENTE


MUSHIN: O ESTADO DE NÃO-MENTE

A essência das artes marciais se orienta preponderantemente para um aperfeiçoamento do ser humano. Porém, nos últimos anos, as novas organizações dos diversos segmentos desta área têm enfatizado o desenvolvimento do tipo "tecnicista-materialista". O pensamento unicamente técnico vem transformando as artes marciais tradicionais em uma mera prática física. Todavia, as artes marciais orientais se diferenciam das ocidentais, e quando aqui são difundidas perdem a sua conotação de sabedoria e originalidade.

É interessante notar a distinção entre "Jutsu", que consiste na arte por si mesma, e "Do” que se constituí na arte como uma trilha de evolução. A ênfase deve sempre dada na atividade como "caminho", que está voltada para o desenvolvimento da consciência e para o autoconhecimento, que é a meta suprema da vida.

O treinamento técnico é de grande importância, mas, de certa forma, artificialmente adicionado e adquirido. É necessário que a mente que dispõe de uma habilidade técnica esteja sintonizada em um estado de fluidez no qual se torne "una" com o objeto de criação, através de uma identificação profunda que só surge quando se experimenta o estado de "vazio", de "não-mente", chamado pelos japoneses de "Mushin".

O mundo do artista é um mundo de livre criação e isso só pode surgir através da intuição direta da essência do objeto de criação e não pelos sentidos ou pelo intelecto. O artista cria formas e sons a partir do amorfo e do sem som. O estado chamado Mushin é indispensável ao processo de criatividade espontânea, assim o artista necessita desenvolvê-lo para que toda sua vida seja um processo de criação constante.

Este é exatamente o estado mental que se desenvolve através da disciplina Zen Budista. Os mestres "Zen" adquirem a intuição fundamental à criação artística, desenvolvem a habilidade de sintonizar a mente em um estado de fluidez, mobilidade e espontaneidade que são essenciais à atividade criativa, de forma permanente e não de forma fugaz, instantânea e imprevisível como acontece com o artista comum, que fica a mercê de uma inspiração da qual ele não tem controle, não sabe quando virá.


*** Pesquisa por Denis Andretta - Shito-Ryu/RS.Esta mensagem foi enviada por Denis Andretta




Mushin - o que é ?

do livro "A Doutrina Zen da Não-Mente"
de Daisetz Teitaro Suzuki


O que é mushin (wu-hsin em chinês)? O que quer dizer "estado de não-mente" ou "estado de não-pensamento"? É difícil encontrarem no português o termo equivalente, a não ser talvez a palavra "inconsciente", embora até mesmo ela deva ser usada num sentido particular. Não é o sentido comum de Inconsciente da psicologia, nem o sentido que lhe é atribuído pela psicanálise, onde ele significa muito mais que a mera falta de consciência; mas, provavelmente, no sentido de "terreno insondável" dos místicos medievais ou no sentido de Vontade Divina anterior à revelação do Verbo ao mundo.


Mushin ou munen deriva primariamente de muga, wu-wo, anatman, "não-ego", "não- identidade" — que é a principal noção do Budismo, tanto Hinayana quanto Mahayana. Com o Buda, não se trata de um conceito filosófico, mas da sua própria experiência; toda a teoria posteriormente desenvolvida em torno dessa experiência constituiu uma estrutura intelectual destinada a apoiar a experiência. Quando a intelectualização se tornou mais profunda e mais adiantada, a doutrina do anatman assumiu um aspecto mais metafísico e a doutrina do Sunyata desenvolveu-se.


No que se refere à experiência em si, não havia diferença, mas a doutrina do Sunyata tem um campo de aplicação mais amplo e, como filosofia, penetra mais profundamente na fonte da experiência. Pois o conceito de Sunyata agora não é aplicável somente à experiência da ausência do ego, mas, em geral, também à experiência do estado da ausência de forma. Todos os Sutras Prajnaparamita negam enfaticamente a noção de pessoa, de ser, de criador, de substância, etc. A teoria do anatman e a de Sunyata são, praticamente, a mesma doutrina. O Prajna acompanha o sunyata e passa a ser um dos principais temas dos Sutras.


O T`an-ching, de Hui-neng, refere-se constantemente à natureza de Buda e à natureza-própria. Ambas significam a mesma coisa e são originalmente, por natureza, puras, vazias, Sunya, não-dicotômicas e inconscientes. Esse Inconsciente puro e desconhecido move-se e desperta o Prajna; e com o despertar do Prajna, surge o mundo das dualidades. Esses eventos, porém, não são cronológicos; não são eventos que se dão no tempo; e todos esses conceitos — como natureza-própria. Prajna, mundo de dualidade e de multiplicidade, são pontos de referência destinados a facilitar e a tornar mais clara a nossa compreensão intelectual. A natureza-própria não tem, portanto, uma realidade correspondente no espaço e no tempo. Pelo contrário, estes é que surgem da natureza-própria.


Outro ponto que devo esclarecer melhor nesta conexão é que o Prajna é o nome dado por Hui-neng à natureza-própria (ou Inconsciente) quando esta se torna consciente de si, ou melhor, indica o próprio ato por que ela se torna consciente de si. O Prajna, portanto, aponta para duas direções: para o Inconsciente e para um mundo de consciência — o qual, agora, encontra-se desdobrado. A primeira se chama Prajna não-discriminativa e a segunda, Prajna de discriminação.


Quando nos achamos envolvidos na direção exterior da consciência e da discriminação, a tal ponto que chegamos a esquecer a outra direção do Prajna, aquela que aponta para o Inconsciente, encontramos o que tecnicamente se chama Prapanca, imaginação. Enunciando a mesma idéia de modo inverso, podemos dizer: quando a imaginação se impõe, Prajna é escondido e a discriminação (vikalpa) se adianta, ficando então obscurecida a superfície pura e imaculada do Inconsciente ou natureza-própria.


Os defensores da teoria de munen ou mushin, aconselham-nos a evitar que o Prajna se perca na direção da discriminação e a conservar os olhos fixos na outra direção. Atingir o mushin significa recobrar, objetivamente falando, o Prajna da não-discriminação. Quando essa idéia for desenvolvida mais detalhadamente, compreenderemos o significado do mushin no pensamento zen.

Em Karate, o Kamae não é somente uma postura física, mas sim um estado de alerta mental, por isso não é necessário se estar em kamae para se defender ou atacar, basta estar em "Mushin" (mente em alerta), que o treinamento físico e mental se encarregará sozinho de responder a uma agressão. Mushin é o mesmo estado mental que se pretende conseguir na prática zen, por isso o Karate é conhecido pelos mestres Zen, como o Zen em movimento.